Nordeste vive reequilíbrio logístico entre supersafra, crédito caro e avanço da IA

Setor de implementos rodoviários cai 6,7% na região no primeiro semestre, retração menor que a média nacional, e olha para tecnologia e ferrovia para destravar escoamento

A consolidação dos corredores logísticos entre o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) e o Matopiba tem gerado novas frentes de demanda por frotas pesadas no Nordeste, mesmo em um ciclo econômico ainda pressionado pelo custo do crédito. Dados divulgados nesta semana pela Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir) mostram que agronegócio, mineração, cimento e a cadeia de petróleo e gás vêm sustentando o mercado regional, com destaque para os fluxos ligados à expansão portuária cearense.

Ainda assim, os emplacamentos de implementos rodoviários recuaram 6,7% no Nordeste no primeiro semestre de 2026. Foram 5.888 unidades do segmento leve e 2.774 do segmento pesado entre janeiro e junho, contra 6.200 e 3.089 no mesmo período de 2025. A retração regional ficou abaixo da queda nacional, de 7,5%. A Selic em 14,25% ao ano, patamar definido pelo Copom em 17 de junho, segue apontada pela entidade como o principal obstáculo para renovação de frotas.

De acordo com o presidente da Anfir, José Carlos Spricigo, o desenvolvimento do Pecém beneficia tanto implementos voltados ao transporte de contêineres quanto equipamentos destinados à logística industrial, distribuição regional e prestação de serviços. “A ampliação da cabotagem, dos centros logísticos e das cadeias de distribuição reforça essa tendência, tornando o Nordeste uma região cada vez mais estratégica para o transporte de cargas”, afirmou ao Movimento Econômico. O agronegócio, sobretudo os grãos produzidos no Oeste da Bahia e no Matopiba, segue como vetor central de demanda, e o transporte rodoviário cearense tem se voltado para reboques mais eficientes que atuem na capilaridade dos eixos ferroviários em consolidação, como a Transnordestina.

Safra recorde expõe gargalo de armazenagem e acelera intermodalidade

O relatório “Retrato da Logística de Grãos do Brasil em 2026”, lançado pela nstech, analisa o impacto da safra recorde de 356,3 milhões de toneladas de grãos, estimada pela Conab para o ciclo 2025/26, sobre a matriz de transportes. O estudo aponta um déficit estrutural de 132 milhões de toneladas em capacidade estática de armazenagem, do qual 15,4 milhões estão concentrados no Nordeste, o terceiro maior gargalo regional do país.

Segundo a nstech, o país iniciou um reequilíbrio da matriz de escoamento: a participação do modal ferroviário deve chegar a 25% em 2025, ante 22% em 2023, enquanto as hidrovias sustentam 9% e as rodovias devem cair para cerca de dois terços do total movimentado. A pressão da supersafra, combinada ao rigor da ANTT sobre os pisos mínimos de frete, resultou em picos recordes no rodoviário. No corredor Rio Verde (GO) até Santos (SP), o custo atingiu R$ 310,5 por tonelada no pico de fevereiro, enquanto o modal ferroviário operou a R$ 205 por tonelada no mesmo período, um desconto estrutural de 28%.

Para o diretor de Agronegócio da nstech, Thiago Cardoso, a digitalização deixou de ser diferencial competitivo para se tornar condição operacional. Softwares de torre de controle e sistemas de predição de tráfego de pátio com uso de inteligência artificial vêm reduzindo o tempo de espera de caminhões nos portos de escoamento, um dos elos mais críticos da cadeia.

IA generativa redesenha a otimização de frotas

O redesenho da roteirização de frotas com uso de IA generativa é uma tendência global consolidada em 2026. Plataformas de routing abandonaram algoritmos estáticos baseados apenas em distância física e passaram a integrar modelos preditivos que cruzam, em milissegundos, dados de flutuação de tráfego, janelas aduaneiras, condições climáticas e comportamento histórico de motoristas. Relatórios setoriais divulgados neste ano, incluindo o State of Sustainable Fleets 2026, apontam economias entre 10% e 20% no consumo de diesel em fleets que adotaram a tecnologia, além de ganho médio de pontualidade nas entregas porta a porta.

Para o mercado cearense, que combina expansão portuária, capilaridade rodoviária e integração ferroviária com o Matopiba, o avanço dessas tecnologias tende a se traduzir em oportunidade concreta de eficiência para operadores logísticos que investirem em ativos leves e reboques compatíveis com a nova matriz de escoamento.

Fontes: Anfir, Movimento Econômico, Conab, nstech, Banco Central do Brasil, State of Sustainable Fleets 2026.

plugins premium WordPress