Uma corrida silenciosa entre governos, militares e empresas de tecnologia redefine quem controla a internet — e Fortaleza ocupa posição estratégica nesse tabuleiro
Do Mar Báltico ao Oceano Pacífico, uma mobilização global está em curso para proteger os cabos submarinos que sustentam praticamente toda a comunicação digital do planeta. A reportagem do Wall Street Journal publicada em 8 de abril detalha como essa infraestrutura invisível, e por muito tempo ignorada, virou prioridade máxima de segurança nacional para Estados Unidos e aliados.
O gatilho foi concreto. Em 2024, um navio ligado à Rússia cortou cabos vitais no Mar Báltico. Em Taiwan, cortes em 2023 e 2025 atingiram exatamente os pontos de maior impacto, o que analistas consideram difícil de ser acidental. Um capitão de navio de bandeira togolesa foi condenado a três anos de prisão por um tribunal taiwanês após ser responsabilizado por danos intencionais a um cabo.
A resposta veio rápida. A OTAN lançou em janeiro de 2025 a operação Baltic Sentry, usando navios, drones e aeronaves para patrulhar a região. “É uma missão permanente e difícil de executar, mas demonstra que a aliança consegue dissuasão por ação coletiva”, disse o comandante Arlo Abrahamson, porta-voz do Comando Marítimo Aliado da OTAN.
O problema técnico que ninguém resolveu ainda
Os cabos submarinos têm cerca de 3,5 centímetros de diâmetro, o tamanho aproximado de uma bola de pingue-pongue. São revestidos com fios de aço, mas mesmo a armadura mais resistente não suporta a âncora de um navio cargueiro grande. “Um pouco de aço extra não vai impedir que seja arrancado”, disse Tim Stronge, diretor de pesquisa da TeleGeography, firma líder em dados do setor.
Perto da costa os cabos são enterrados, mas até certa profundidade. “Um adversário determinado ainda consegue cortá-los em águas rasas com relativa facilidade”, alertou David Brewster, pesquisador de segurança marítima da Universidade Nacional Australiana.
A China preocupa ainda mais. Pesquisadores chineses desenvolveram um dispositivo com uma roda de corte revestida de diamante capaz de seccionar cabos a até 4 mil metros de profundidade, tornando vulnerável até a infraestrutura oceânica mais profunda.
A tecnologia que pode mudar o jogo
Startups de defesa entram na disputa. A Lumetec, empresa americana, desenvolveu um sistema de sensoriamento acústico distribuído que envia pulsos de laser pelo comprimento do cabo. Quando algo ou alguém se aproxima, a vibração altera o sinal de retorno, permitindo identificar se é um petroleiro, barco de pesca ou lancha, e onde exatamente está. “Podemos te dizer que é um petroleiro, um barco de pesca, um speedboat ou um veleiro”, afirmou Zack Spica, professor da Universidade de Michigan e cofundador da empresa.
A Anduril Industries foi além: desenvolveu o Seabed Sentry, um dispositivo que se instala no fundo do oceano e permanece operando por meses, com sonar para monitorar embarcações que passam por pontos críticos.
Paralelamente, a estratégia de rotas também muda. Novos cabos planejados estão sendo traçados para evitar o Mar do Sul da China, área de tensão entre China e Filipinas. O cabo I-AM passará pela costa das Filipinas; o Candle irá ainda mais a leste.
Segundo dados da TeleGeography citados no WSJ, havia 119 novos cabos planejados globalmente em meados de fevereiro de 2026, contra 98 em janeiro do ano anterior e apenas 66 em janeiro de 2020. A demanda por IA é um dos principais motores dessa expansão.
Onde o Ceará entra nessa história
Fortaleza não é coadjuvante nesse cenário. É protagonista.
O litoral cearense concentra um dos maiores pontos de aterrissagem de cabos submarinos do mundo, com sistemas que conectam América do Sul, América do Norte, Europa e África. Cabos como o EllaLink, o Malbec, o SACS e outros colocam o estado no centro físico da conectividade do Atlântico Sul.
Esse posicionamento, que por anos foi tratado como dado geográfico, agora tem peso geopolítico e econômico direto. Enquanto governos debatem como proteger essa infraestrutura e empresas correm para desenvolver tecnologia de monitoramento, o Ceará já está no mapa como ponto crítico.
Para o empresariado local, isso não é só um assunto de geopolítica. É uma janela de negócios concreta. A cadeia que orbita essa infraestrutura — segurança física de instalações, energia de backup, manutenção especializada, logística costeira, fornecedores de tecnologia para data centers — ainda tem espaço relevante para ser ocupada por empresas cearenses.
O debate global chegou. A pergunta é se o setor privado e o poder público no Ceará vão perceber isso rápido o suficiente para sentar à mesa antes que as cadeiras sejam tomadas.
Fonte: Wall Street Journal, “Inside the Race to Protect Submarine Cables From Sabotage”, Mike Cherney, 8 de abril de 2026.