CNT apresenta estudo para destravar hidrovias brasileiras

A Confederação Nacional do Transporte (CNT) apresentou, esta semana em Brasília, um estudo inédito com propostas para ampliar a participação da navegação interior na matriz logística nacional. O documento, elaborado pela consultoria Pezco em parceria com o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), reúne diagnóstico completo da governança e regulação das hidrovias e propõe uma agenda de transformação com horizonte até 2046.

O cenário atual é contraditório: apesar de o Brasil possuir uma das maiores redes hidrográficas do mundo, com aproximadamente 20 mil quilômetros de rios naturalmente navegáveis, o país utiliza as hidrovias para apenas 5% do transporte de cargas. Esse desperdício representa um dos principais gargalos da competitividade logística brasileira.

Fragmentação de governança e insegurança regulatória travam o setor

O estudo identificou como principais entraves ao desenvolvimento das hidrovias a fragmentação da governança, a insegurança regulatória, a insuficiência de investimentos em infraestrutura, a escassez de mão de obra especializada e as dificuldades de acesso a financiamento.

Segundo Valter Souza, diretor de Relações Institucionais da CNT, o fortalecimento das hidrovias é fundamental para criar equilíbrio na matriz de transportes brasileira. “Não podemos continuar com uma matriz em que cerca de dois terços das cargas são transportados por caminhões. Precisamos desenvolver outros modais, e a navegação interior é um deles”, afirmou.

Para Otto Burlier, secretário nacional de Hidrovias e Navegação do MPor, a situação é inadmissível. “É incompreensível um país com cerca de 20 mil quilômetros de rios naturalmente navegáveis utilizar apenas cerca de 5% da sua matriz logística por hidrovias”, disse.

Agenda estruturada com horizonte até 2046

As recomendações do estudo foram organizadas em ações de curto, médio e longo prazo, abordando cinco eixos principais: aperfeiçoamento da governança, infraestrutura adequada, regulação moderna, formação de mão de obra e mecanismos de financiamento.

A proposta de uma instância nacional de coordenação da política para hidrovias destaca-se como medida estruturante. O estudo defende também a estruturação de novos mecanismos de financiamento e concessões hidroviárias, buscando atrair investimento privado de forma sustentada.

Frederico Turolla, economista responsável pela apresentação técnica do estudo pela Pezco Economics, explicou que as propostas foram desenhadas para fortalecer a inserção do modal hidroviário no planejamento logístico nacional. “O desafio não é apenas identificar os problemas. É construir soluções que funcionem no longo prazo, com continuidade de políticas independente de ciclos eleitorais”, afirmou.

Hidrovias como política de Estado, não de governo

A CNT defende que a logística deve ser tratada como uma política de Estado, com planejamento de longo prazo e participação conjunta de todos os atores envolvidos. “Mudar a matriz de transporte exige continuidade, planejamento e união entre todos os envolvidos. O Brasil tem um enorme potencial para desenvolver a navegação interior”, reforçou Valter Souza.

Um comboio com apenas 4 barcaças é capaz de transportar carga equivalente a 2,9 composições férreas de aproximadamente 30 vagões cada, ou a 172 carretas. A eficiência energética também é incomparável: o transporte hidroviário consome apenas 26% do combustível necessário pelo modal rodoviário, considerando o mesmo volume de carga e distância percorrida.

Impacto para a logística brasileira e o Nordeste

Para a região Nordeste e o Ceará especificamente, a ampliação das hidrovias representa oportunidade de integração modal com a Transnordestina e o Porto do Pecém. O potencial de redução de custos logísticos e a possibilidade de escoamento de commodities por rotas multimodais reforçam a importância estratégica do estudo.

O documento será utilizado para subsidiar futuras políticas públicas para o modal hidroviário, com expectativa de influenciar decisões regulatórias e de investimento nos próximos anos.


Números-chave do estudo

Indicador Valor
Rios navegáveis no Brasil ~20 mil km
Utilização atual ~5%
Potencial total de rios navegáveis 63 mil km
Horizonte do plano de transformação Até 2046
Consumo de combustível (hidrovia vs. rodoviária) 26% menor

Fonte: CNN Brasil, Transporte Moderno, CNT

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