Onze comercializadoras acumulam mais de R$ 6 bilhões em dívidas e quatro pediram recuperação judicial em dois meses. Ao mesmo tempo, grandes geradoras suspendem investimentos em energia solar diante dos cortes forçados de geração. A combinação expõe um risco sistêmico que pode chegar a hospitais, saneamento e à conta de luz do consumidor.
O mercado brasileiro de energia elétrica vive uma crise de duas pontas que atinge ao mesmo tempo quem produz e quem comercializa. De um lado, pelo menos 11 comercializadoras acumulam mais de R$ 6 bilhões em dívidas, com quatro companhias em colapso financeiro apenas entre abril e maio deste ano. De outro, gigantes do setor solar como Atlas Renewable Energy, Engie, Serena e Voltalia já anunciaram que não farão novos aportes no Brasil enquanto o governo não apresentar uma solução clara para os cortes forçados de geração renovável. As informações são da Folha de S.Paulo e do NeoFeed.
Efeito dominó no mercado livre
O mercado livre, ambiente em que médios e grandes consumidores compram energia diretamente de geradoras e comercializadoras, já responde por mais de 40% do consumo nacional de eletricidade. Foi justamente a expansão acelerada desse ambiente, puxada pela migração de clientes em busca de preços mais competitivos, que agora se transforma em risco.
Segundo levantamento da Folha, quatro operações concentram o rombo. A 2W Ecobank entrou em recuperação judicial com passivo de R$ 2,39 bilhões. A Tradener, uma das pioneiras do segmento, soma R$ 1,7 bilhão em dívidas. A Electra pediu proteção judicial com passivo próximo de R$ 1,3 bilhão. A Gold acionou recuperação extrajudicial com mais de R$ 1 bilhão a renegociar.
O cenário é atribuído a uma “tempestade perfeita” que combina volatilidade intensa dos preços no curto prazo, aumento das exigências de garantias financeiras e descasamento entre o que as comercializadoras venderam aos clientes e o que efetivamente pagaram às geradoras. Entre 2023 e 2025, eventos climáticos reduziram a oferta de energia hidrelétrica, mais barata, ao mesmo tempo em que os cortes impostos à geração renovável apertaram ainda mais a oferta.
Alerta de risco sistêmico
Bernardo Felipe Abrão, presidente do Comitê de Transição e Governança da 2W Ecobank, foi direto sobre o efeito prático da quebradeira. Segundo ele, a interrupção abrupta do fornecimento força clientes a correr para outras comercializadoras e “cria um grave risco sistêmico e de apagão para serviços essenciais, como hospitais, sistemas de saneamento e infraestrutura de telecomunicações”, declarou à Folha.
A Electra atribui a crise a uma alteração no cálculo do PLD (Preço da Liquidação das Diferenças), que passou a ser calculado a cada hora do dia, deixando o mercado mais sujeito a oscilações. “As alterações regulatórias produziram um modelo de alta de preço, reduzindo a disposição dos geradores de colocar energia no mercado, com impacto no custo de compra de energia das comercializadoras”, afirmou a empresa. O PLD subiu 84% entre 2024 e 2026, saindo de R$ 129 para R$ 236 por MWh, segundo a Abraceel.
Mesas de trading e apostas equivocadas
Guilherme Moya, cofundador da Ynova, empresa que intermedeia contratos entre geradoras e consumidores, aponta que boa parte das comercializadoras assumiu posições típicas de negociação de commodities. “Essas empresas possuem mesas de trading e tomam posição, ficando compradas ou vendidas na expectativa de alta ou queda dos preços da energia. Quando o mercado caminhou em outra direção, muitas ficaram expostas e não conseguiram absorver os prejuízos”, declarou à Folha.
Do lado dos grandes consumidores, o clima é de alerta. Carlos Faria, diretor-presidente da Anace (Associação Nacional dos Consumidores de Energia), recomenda cautela redobrada. “A situação exige análises ainda mais criteriosas das comercializadoras antes de fechar negócio. Além disso, os consumidores devem ficar atentos ao aumento do rigor, por parte dessas empresas, em relação às condições acordadas e ao risco de notificação por inadimplência nos contratos de compra de energia”, apontou.
Solar paralisada pelo curtailment
Enquanto o mercado livre implode, a geração renovável centralizada trava. O curtailment, corte forçado da geração solar e eólica pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico para preservar a estabilidade da rede, já atinge o equivalente a um quarto da produção solar em 2026. Prejuízos com cortes foram projetados em R$ 6,5 bilhões em 2025, segundo a Volt Robotics.
Rodrigo Sauaia, presidente da Absolar, aponta a raiz do problema na falta de planejamento. “Linhas de transmissão levam de quatro a sete anos, enquanto projetos renováveis ficam prontos em dois anos”, afirma. Sem reembolso pelos cortes, o setor considera a situação insustentável.
A distorção regulatória agrava o quadro. Segundo o ONS, cerca de 14 GW de geração distribuída operam sem conformidade, criando sobrecarga não controlada que penaliza a geração centralizada. “Existe hoje um segmento altamente subsidiado, o da GD, que causa curtailment mas não arca com os prejuízos”, resume executivo da Auren ouvido pelo NeoFeed.
Três ondas de crise à vista
O NeoFeed alerta que a inação regulatória pode desencadear três ondas sucessivas. A primeira seria a quebra de empresas de energia renovável. A segunda, o colapso do sistema por sobrecarga da geração distribuída. A terceira, mais custosa, envolveria o acionamento de térmicas caras, criando o que executivos chamam de bomba tarifária para o consumidor final.
O Ministério de Minas e Energia afirma que acompanha o quadro de forma permanente pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, com análises sobre inadimplência entre comercializadoras e níveis de endividamento do segmento. Apesar da quebradeira, a pasta sustenta que “os dados analisados não indicam risco sistêmico para o mercado” e que Aneel e CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) avançam com medidas voltadas ao fortalecimento da segurança do mercado. Sobre o ressarcimento dos cortes previsto na Lei 15.269/2025, o ministério afirma que o termo de compromisso está em fase final de elaboração após oito meses de espera.
Procuradas pela reportagem da Folha, as empresas Tradener e Gold não comentaram o assunto. Bancos já começaram a restringir crédito para comercializadoras diante do risco crescente.
Impacto para o Nordeste
A região Nordeste concentra a maior parte da geração solar e eólica centralizada do país e responde por parcela relevante do curtailment. A paralisia dos investimentos ameaça diretamente o pipeline de projetos em Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia e Piauí, além de projetos de hidrogênio verde e data centers que dependem de energia renovável barata e disponível. A abertura total do mercado livre, prevista para os próximos anos, chega em um momento de desconfiança dos bancos e cautela dos investidores estrangeiros.
Fontes: Folha de S.Paulo, edição de 14 de julho de 2026, matéria assinada pela redação de Mercado, e NeoFeed, edição de 14 de julho de 2026. Informações complementares apuradas junto a CNN Brasil, Reuters, Eixos, Abraceel e Volt Robotics.
Foto: Reprodução/Divulgação