Amarílio Macêdo, 81 anos, deixou a liderança do Grupo J. Macêdo em 2025 e agora direciona investimentos para estruturar uma Zona de Processamento de Exportação no interior do Ceará. O projeto se apoia no porto seco de Quixeramobim, no trecho da Transnordestina e nos 20 anos de isenção tributária previstos pela reforma para ZPEs.
Depois de 50 anos à frente da empresa fundada por seu pai, José Macêdo, o empresário cearense Amarílio Macêdo passou a canalizar o capital acumulado ao longo de meio século no setor de moagem de trigo, com marcas como Dona Benta, Sol e Petybon, para um novo negócio industrial no sertão central cearense. O investimento inicial é de R$ 20 milhões, com previsão de novos aportes e prospecção de investidores no exterior. As declarações foram dadas em entrevista à coluna Painel S.A., da Folha de S.Paulo, publicada em 12 de julho de 2026.
A ZPE de Quixeramobim é um distrito industrial planejado para receber empresas que produzem voltadas à exportação. O município já conta com porto seco e com trecho da Ferrovia Transnordestina, cuja conclusão foi confirmada pelo governo federal para 2028. Para Macêdo, essa combinação de infraestrutura logística com o incentivo fiscal aprovado na reforma tributária cria uma janela concreta de atração de capital estrangeiro.
Reforma tributária como fator decisivo
A reforma tributária prevê 20 anos de isenção de impostos para as ZPEs, abrangendo desde a compra de equipamentos até todos os insumos necessários para produzir e exportar. Segundo o empresário, o modelo já atrai interesse de investidores chineses, americanos e canadenses. Ele afirma que existem grupos interessados nos setores agroindustrial, de mineração e de telefonia.
Na avaliação de Macêdo, o incentivo fiscal só se justifica quando gera riqueza real para a sociedade, não quando transfere renda de quem paga imposto para quem recebe o benefício. Ele defende que a nova estrutura tributária vai eliminar um fator histórico de desigualdade regional. “O Sudeste cresceu nas costas do Nordeste por décadas, agora é a vez de o Nordeste crescer com as próprias pernas, menos dependente do mercado nacional e mais voltado à exportação”, declarou à Folha.
Pecém como referência e Santos como comparativo
O empresário aponta o Complexo Portuário do Pecém como o modelo a ser seguido e revelou parceria com quem foi fundamental na construção da ZPE do Pecém, sem divulgar nomes. A estratégia é replicar a curva de aprendizado já testada no litoral cearense.
Macêdo projeta ainda que o Pecém deve superar o Porto de Santos no horizonte de 30 anos, por uma questão física. Santos, segundo ele, não tem mais para onde crescer, enquanto o terminal cearense conta com dezenas de quilômetros de mar disponíveis para expansão.
Mão de obra e ambiente de negócios
Questionado sobre desafios operacionais, o empresário afirmou que mão de obra não é problema para quem paga decentemente. Ele avalia que o principal entrave está na concorrência com o Bolsa Família, que segundo ele remunera melhor do que empregadores que não querem pagar imposto sobre carteira assinada.
Sobre o ambiente para empreender no Brasil, Macêdo é direto. Diz que ainda vale muito a pena investir no país e reforça que o próprio investidor chinês também enxerga essa oportunidade.
Perfil
Amarílio Macêdo nasceu em Fortaleza em 1945. É acionista de referência do Grupo J. Macêdo, empresa fundada por seu pai, José Macêdo, no Ceará. Trabalhou por 50 anos na companhia e deixou a liderança da holding em 2025. É cofundador do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).
Fonte: Coluna Painel S.A., Folha de S.Paulo, edição de 12 de julho de 2026, entrevista concedida à repórter Luana Franzão, com coordenação do interino Alex Sabino.